Casos recentes e avanço de projeto de lei reacendem discussão sobre ódio estrutural e proteção feminina no Brasil
A violência contra mulheres no Brasil não é um fato isolado — é reflexo de um problema estrutural que ainda persiste: a misoginia. O tema voltou ao centro do debate após casos recentes de feminicídio e agressões, além da aprovação, no Senado Federal, de um projeto de lei que propõe criminalizar práticas misóginas.
Mais do que atitudes individuais, a misoginia representa um sistema que sustenta a desigualdade de gênero e legitima a violência. Trata-se do ódio e da desvalorização das mulheres, alimentados por padrões históricos que ainda colocam o masculino como dominante.
Violência começa no discurso e cresce no silêncio
Especialistas alertam que a violência contra a mulher não começa apenas no ato físico — ela nasce no discurso. E hoje, esse discurso ganha força nas redes sociais e em espaços online.
Fóruns, vídeos e grupos digitais têm servido como ambientes de disseminação de ideias que reforçam a superioridade masculina e incentivam a submissão feminina. Esse fenômeno, conhecido como “machosfera”, tem alcançado cada vez mais jovens.
Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro identificaram mais de 130 mil canais com conteúdos misóginos, muitos deles disfarçados em temas como relacionamentos ou desenvolvimento pessoal — uma porta de entrada para discursos de ódio.
Quando o discurso vira violência
Os impactos desse cenário já aparecem na vida real. Um dos casos que chocaram o país foi o assassinato da policial Gisele Alves Santana, em São Paulo. As investigações apontam o marido como principal suspeito, e revelaram o uso de termos ligados à misoginia, como “macho alfa” e “mulher beta”.
Além disso, vídeos que circulam nas redes sociais mostrando homens simulando agressões contra mulheres após rejeição reforçam a naturalização da violência e evidenciam como o ódio tem sido banalizado.
Criminalizar a misoginia é proteger mulheres
Diante desse cenário, o Senado aprovou um projeto de lei que reconhece a misoginia como crime. A proposta inclui a prática entre os crimes de preconceito e discriminação e prevê pena de dois a cinco anos de prisão.
O texto define a misoginia como qualquer conduta que expresse ódio ou aversão às mulheres — um passo importante no reconhecimento da gravidade desse tipo de violência.
Tentativas de flexibilizar a punição sob o argumento de “liberdade de expressão” foram rejeitadas, reforçando que discurso de ódio não pode ser confundido com opinião.
Os números mostram: é urgente agir
A realidade brasileira confirma a gravidade do problema. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o país registra, em média, quatro feminicídios por dia. Em 2025, foram 1.547 mulheres assassinadas — um número que cresce ano após ano.
Esses dados não são apenas estatísticas: são vidas interrompidas por uma cultura que ainda tolera a violência de gênero.
Rede de apoio salva vidas
Diante de qualquer situação de violência, buscar ajuda é essencial. A Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 funciona 24 horas por dia, oferecendo acolhimento, orientação e encaminhamento.
Também é possível denunciar em delegacias especializadas (Deam), delegacias comuns, Casas da Mulher Brasileira, além dos canais Disque 100 e Polícia Militar (190).
Mais do que lei, é mudança de cultura
O avanço na legislação é um passo importante, mas o combate à misoginia exige transformação social. É necessário romper o silêncio, questionar discursos e fortalecer o respeito às mulheres em todos os espaços.
Falar sobre misoginia é, acima de tudo, falar sobre dignidade, segurança e direito à vida.
Com informações da Agência Brasil

