Passados 100 dias desde o aparecimento de sinais de contaminação na praia de São Tomé do Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, moradores da região seguem enfrentando incertezas e prejuízos causados pelo desastre ambiental. O problema veio à tona em 19 de fevereiro, quando um forte odor semelhante ao de amônia chamou a atenção da comunidade e levou à descoberta de um líquido esverdeado e com cheiro intenso infiltrado na areia da praia.
Entre os moradores afetados está o eletrotécnico Jocivaldo Nascimento, de 48 anos, que vive próximo ao local. Segundo ele, bastou escavar superficialmente a faixa de areia para encontrar sinais da substância contaminante. Desde então, a população aguarda providências que permitam a recuperação da área, considerada uma importante fonte de renda para milhares de famílias.
De acordo com a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, do Ministério Público da Bahia (MPBA), cerca de 10,7 mil pessoas foram diretamente impactadas pela situação. A região possui forte ligação com atividades pesqueiras, marisqueiras e o comércio à beira-mar, o que amplia os efeitos sociais e econômicos da contaminação.
As investigações apontam suspeitas de que a origem do problema esteja relacionada ao Terminal Marítimo de Granéis (TMG), atualmente operado pela empresa Terminal Itapuã – Intermarítima. As operações no local permanecem suspensas. A área também foi utilizada pela Gerdau até 2022, motivo pelo qual a empresa igualmente está no foco das apurações.
Segundo a promotora, já existem elementos que indicam a ligação entre a contaminação e as atividades desenvolvidas no terminal. Entre as medidas consideradas urgentes está a implantação de uma barreira hidráulica para impedir o avanço dos contaminantes, além da realização de estudos e ações de descontaminação ambiental.
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Ação judicial deve ser protocolada
O Ministério Público Federal, o Ministério Público da Bahia e a Defensoria Pública da União preparam uma ação civil pública que deverá ser apresentada à Justiça Federal nas próximas semanas. O objetivo é responsabilizar os envolvidos e garantir assistência às famílias atingidas.
Além disso, os órgãos defendem a decretação de situação de emergência pelo município, medida considerada fundamental para facilitar o acesso a recursos e benefícios destinados aos moradores prejudicados.
Laudos confirmam presença de contaminantes
Análises realizadas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) identificaram concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, especialmente cobre, em amostras coletadas na água, nos sedimentos e na fauna local.
Os estudos confirmaram a presença de contaminação em diferentes componentes do ecossistema costeiro. Diante dos resultados, as empresas envolvidas foram notificadas para apresentar planos emergenciais de recuperação ambiental.
Enquanto isso, a área segue classificada como imprópria para banho. O Inema orienta a população a evitar o contato com a água, os sedimentos e a prática de atividades pesqueiras na região afetada.
Comunidade relata prejuízos e problemas de saúde
Moradores afirmam que os impactos ambientais já eram percebidos há alguns anos. Segundo relatos, o descarregamento e transporte de fertilizantes no terminal geravam odores frequentes e, em ocasiões anteriores, já haviam sido registrados episódios de mortandade de peixes.
Jocivaldo lembra que, durante o Carnaval, adolescentes que participaram de uma tradição local de cobrir o corpo com areia apresentaram irritações na pele e dificuldades respiratórias após o contato com o material contaminado.
A situação levou a uma série de manifestações da comunidade em frente ao terminal portuário. Os moradores denunciam que a intensa movimentação de cargas ocorria durante praticamente todo o dia, agravando os transtornos para quem vive na região.
Denúncias de racismo ambiental
A vereadora de Salvador Eliete Paraguassu acompanha o caso desde os primeiros relatos da contaminação e defende que a situação evidencia um cenário de racismo ambiental. Segundo ela, São Tomé do Paripe abriga comunidades tradicionais, incluindo famílias remanescentes de quilombos, cuja sobrevivência depende diretamente da atividade pesqueira.
A parlamentar alerta ainda para o risco de dispersão dos contaminantes pela Baía de Todos-os-Santos, afetando outras localidades. Relatos de aparecimento de animais marinhos mortos em praias da região reforçam a preocupação.
Famílias aguardam auxílio emergencial
A dona de casa Daniela Vasconcelos, descendente de pescadores da comunidade, afirma que nunca presenciou uma situação semelhante. Para ela, além da recuperação ambiental, é necessário garantir apoio financeiro às famílias que perderam sua principal fonte de renda.
Representantes do Ministério Público avaliam que a ausência de um decreto municipal de emergência dificulta a implementação de medidas mais amplas de assistência. A expectativa é que cerca de 800 famílias possam ser contempladas por programas de auxílio emergencial caso o reconhecimento oficial da situação seja formalizado.
Segundo a promotora Hortênsia Gomes Pinho, os impactos atingem pescadores, marisqueiros, ambulantes, barraqueiros e trabalhadores ligados ao turismo local, agravando a vulnerabilidade social da comunidade.
Empresas divergem sobre responsabilidade
Em nota, a Prefeitura de Salvador informou que vem adotando ações emergenciais, como distribuição de cestas básicas, manutenção de restaurante popular na região e atualização de cadastros sociais. O município destaca, porém, que sua atuação é limitada por se tratar de uma área sob jurisdição federal.
Já a Intermarítima afirma colaborar com as investigações e nega operar com substâncias compatíveis com o material encontrado na praia. A empresa sustenta que todos os sistemas de drenagem do terminal possuem tratamento adequado e que não existem evidências de ligação entre suas operações e a contaminação.
Por outro lado, a companhia atribui parte da responsabilidade ao histórico ambiental da área, alegando que problemas existentes antes da aquisição do terminal não teriam sido totalmente solucionados.
A Gerdau, que administrou o local até 2022, rejeita qualquer responsabilidade pela contaminação atual e argumenta que o principal contaminante identificado — o nitrogênio amoniacal — estaria associado a fontes mais recentes. A empresa também criticou as acusações feitas pela atual operadora e afirmou ter cumprido todas as exigências ambientais durante o período em que esteve à frente do terminal.
Apesar de contestar envolvimento direto no caso, a Gerdau informou ter manifestado disposição para colaborar financeiramente com ações voltadas à comunidade e às investigações ambientais, sem reconhecer responsabilidade pelo ocorrido.
Enquanto as apurações avançam, moradores de São Tomé do Paripe seguem aguardando medidas efetivas para recuperar o meio ambiente e garantir condições dignas de sobrevivência às famílias afetadas pela contaminação.
*Com informações da Agência Brasil

