BrasilEbola deixa mais de 2,3 mil mortos e provoca pior surto da...

Ebola deixa mais de 2,3 mil mortos e provoca pior surto da história do Congo

A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta o surto de ebola mais mortal já registrado no país. Até domingo (16), as autoridades contabilizavam 4.945 casos confirmados e 2.325 mortes, segundo os dados mais recentes divulgados pelo governo congolês.

O número de óbitos superou o da epidemia registrada entre 2018 e 2020, que provocou 2.299 mortes. Com isso, o atual surto também passou a ser o segundo mais letal de ebola já registrado no mundo, atrás apenas da epidemia que atingiu principalmente Guiné, Libéria e Serra Leoa entre 2014 e 2016 e deixou mais de 11 mil mortos.

A velocidade de crescimento dos casos chama a atenção. Em 30 de julho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizava 3.605 casos confirmados e 1.587 mortes somente na República Democrática do Congo. Pouco mais de duas semanas depois, o número de casos se aproximou de 5 mil e as mortes ultrapassaram 2,3 mil.

Surto foi declarado em maio

A atual emergência é o 17º surto de ebola registrado na República Democrática do Congo desde que o vírus foi identificado, em 1976.

O governo declarou oficialmente a epidemia em 15 de maio de 2026. Investigações posteriores, no entanto, indicaram que o vírus já circulava havia meses e que a transmissão pode ter começado em fevereiro. A demora na identificação permitiu que a doença avançasse antes da mobilização em larga escala das autoridades sanitárias.

Os primeiros registros foram identificados na região de Ituri, no leste do país. Desde então, a doença avançou para outras áreas. No fim de julho, a OMS já registrava casos em dezenas de zonas de saúde distribuídas por cinco províncias congolesas.

Tipo do vírus dificulta combate à epidemia

O surto é provocado pelo vírus Bundibugyo, uma espécie de ebolavírus menos comum. Uma das principais dificuldades é a ausência de ferramentas específicas já aprovadas para combatê-lo.

Atualmente, não existe vacina licenciada nem tratamento específico aprovado contra o Bundibugyo. A situação é diferente daquela provocada pelo vírus Ebola Zaire, para o qual existem imunizantes e tratamentos disponíveis.

A OMS informou que especialistas avaliam possíveis vacinas para utilização em estudos clínicos. Em agosto, um grupo consultivo da organização recomendou que a vacina Ervebo, licenciada contra o vírus Ebola Zaire, seja estudada em um ensaio clínico para verificar sua possível utilização diante do atual surto de Bundibugyo.

Apesar da ausência de um tratamento específico, o atendimento precoce é fundamental. Cuidados de suporte, como hidratação e tratamento dos sintomas, podem aumentar as chances de sobrevivência.

Letalidade se aproxima de 50%

Os números atuais indicam uma taxa de letalidade próxima de 47% entre os casos confirmados. Especialistas apontam que o aumento das mortes está relacionado, entre outros fatores, à demora no diagnóstico e ao acesso tardio aos serviços de saúde.

O ebola é uma doença grave transmitida principalmente pelo contato direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas em decorrência da doença, além do contato com objetos e superfícies contaminados.

Entre os sintomas estão febre, fraqueza intensa, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta. Com a evolução do quadro, podem aparecer vômitos, diarreia, alterações nas funções dos rins e do fígado e, em alguns casos, sangramentos. O vírus não se espalha da mesma maneira que doenças respiratórias, como gripe e covid-19.

Conflitos e desinformação dificultam controle

Além das características da doença, a situação política e social das regiões afetadas representa outro desafio.

O leste da República Democrática do Congo enfrenta há anos conflitos armados, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso a serviços básicos. Equipes envolvidas no combate ao ebola também enfrentam escassez de recursos, problemas de infraestrutura e episódios de violência.

Outro problema é a dificuldade de rastrear quem teve contato com pacientes infectados. Informações recentes apontam que grande parte das novas infecções está sendo identificada fora das cadeias de contatos já monitoradas, o que indica circulação do vírus ainda não detectada pelas equipes de vigilância.

A desinformação e a desconfiança de algumas comunidades em relação às autoridades e aos profissionais de saúde também prejudicam medidas como isolamento de pacientes, rastreamento de contatos e realização de sepultamentos seguros.

Emergência internacional

A epidemia ultrapassou as fronteiras congolesas. Casos também foram registrados em Uganda, enquanto pacientes ligados ao surto chegaram a receber atendimento em países europeus.

Diante da ameaça, em maio, a OMS classificou o surto provocado pelo vírus Bundibugyo na RDC e em Uganda como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o nível de alerta previsto no Regulamento Sanitário Internacional para situações que exigem coordenação entre países.

Agora, o principal desafio das autoridades é ampliar rapidamente a identificação de casos, o isolamento dos pacientes, o rastreamento de contatos e o acesso ao atendimento para interromper as cadeias de transmissão.

 

Continue Lendo

ÚLTIMAS NOTÍCIAS