Em um território marcado pelo isolamento geográfico e pelos desafios de acesso à saúde especializada, famílias de Fernando de Noronha começam a encontrar novas possibilidades de cuidado. Uma iniciativa voltada para pessoas neurodivergentes e seus responsáveis tem levado atendimento médico, acolhimento e tratamento à base de canabidiol para moradores do arquipélago.
Entre os beneficiados está o filho da professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível de suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o menino enfrentava frequentes episódios de agitação e agressividade.
Responsável sozinha pelos cuidados do filho, além de conciliar o trabalho e a criação de outra criança, Rayane também passou a sentir os impactos da sobrecarga emocional.
“Sou a única pessoa que cuida dele. A rotina intensa acabou me levando a desenvolver ansiedade generalizada e dificuldades para dormir”, relata.
A mudança começou a ser percebida após o início do tratamento com canabidiol, em março deste ano. Segundo a professora, as crises diminuíram significativamente, trazendo mais tranquilidade para a rotina familiar.
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O acesso ao tratamento foi possibilitado pelo Projeto Noronha, desenvolvido em parceria pela Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e Administração Distrital da ilha.
Desde o início de 2026, a iniciativa já promoveu dois mutirões de atendimento, realizados nos meses de fevereiro e maio. Ao todo, foram oferecidas gratuitamente 126 consultas médicas e distribuídos 221 frascos de óleo de canabidiol para pacientes da comunidade.
A proposta, no entanto, vai além das ações pontuais. O projeto já trabalha na implantação de uma estrutura permanente de apoio às famílias neuroatípicas em um terreno cedido pela administração local. O espaço deverá oferecer orientação, acompanhamento e acolhimento contínuos para moradores da ilha.
De acordo com Alexandre Assis, diretor da Abecmed, a intenção é consolidar uma rede duradoura de assistência.
“A maioria dos mutirões de saúde realizados no país acontece apenas uma vez. Em Noronha, estamos construindo algo diferente. Já retornamos à ilha uma segunda vez, voltaremos a cada três meses e ajudamos a criar uma rede permanente de suporte para essas famílias”, destaca.
Cuidado também para quem cuida
Outro eixo importante do projeto é a atenção dedicada às mães de crianças atípicas. Frequentemente responsáveis por todo o acompanhamento dos filhos, muitas delas enfrentam exaustão física e emocional.
Um dos idealizadores da iniciativa, Ladislau Porto resume essa realidade em uma frase: “Quando a criança entra em crise, ela tem a mãe. Quando a mãe entra em crise, muitas vezes não há ninguém para ampará-la”.
Por isso, o programa também oferece acompanhamento para essas mulheres.
Foi o caso de Rebeca Allen, presidente da associação de mães do arquipélago. Mãe de uma criança de sete anos diagnosticada com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial, ela conta que desenvolveu depressão e Transtorno de Ansiedade Generalizada diante das demandas constantes de cuidado.
Os primeiros sinais surgiram em 2023, durante a busca por tratamento para o filho.
“Eu comecei a esquecer compromissos, sentir falta de ar e dores no peito. Mesmo assim, pensava que precisava estar bem porque era o contato de emergência do meu filho”, relembra.
Embora tenha recorrido a tratamentos convencionais e medicamentos para dormir, os sintomas persistiram. A partir da introdução do canabidiol, em fevereiro deste ano, ela relata melhora na ansiedade, na qualidade do sono e na organização da rotina.
Os benefícios também foram percebidos no comportamento do filho, que apresentou redução da agressividade e maior participação nas terapias e atividades escolares.
Distância dos grandes centros amplia desafios
As dificuldades enfrentadas pelas famílias de Fernando de Noronha estão diretamente ligadas à estrutura de saúde disponível na ilha. Atualmente, o arquipélago conta apenas com o Hospital São Lucas como unidade pública de atendimento, responsável por casos de média complexidade.
Quando há necessidade de tratamentos especializados, os pacientes precisam ser encaminhados ao continente. Recife, principal referência médica para os moradores, fica a cerca de 545 quilômetros de distância.
Além das barreiras de deslocamento, o isolamento geográfico também tem contribuído para o aumento de problemas relacionados à saúde mental entre os habitantes.
Dados levantados durante o segundo mutirão realizado pela Abecmed mostram que 70,6% dos pacientes procuraram atendimento por questões ligadas à saúde mental. Também foram identificadas demandas relacionadas a neurodivergências (41,3%), distúrbios do sono (32%), dores crônicas e osteomusculares (29,6%) e condições neurológicas (6,8%).
Entre os sintomas mais relatados estavam ansiedade, insônia, dor crônica, alterações de humor, crises de pânico, bruxismo e dificuldades de concentração.
Já entre os diagnósticos ligados ao neurodesenvolvimento, destacaram-se casos de TEA, TDAH, Transtorno Opositor Desafiador (TOD) e investigações em andamento para autismo e déficit de atenção.
Segundo os responsáveis pelo projeto, os dados coletados servirão de base para pesquisas futuras que busquem compreender os impactos sociais e econômicos da iniciativa na população local.
Como o canabidiol atua
O uso medicinal da cannabis tem ganhado espaço nos últimos anos, especialmente em tratamentos neurológicos e psiquiátricos.
De acordo com o neurologista Eduardo de Sá Faveret, voluntário do Projeto Noronha, os canabinoides possuem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que podem contribuir em diversas condições de saúde.
No caso de pessoas com TEA, o canabidiol tem sido utilizado para auxiliar no controle da agressividade, da agitação e dos distúrbios do sono. O especialista explica que a substância atua sobre o sistema endocanabinoide, responsável por regular funções relacionadas ao equilíbrio do organismo e à resposta ao estresse.
Outro diferencial apontado pelos profissionais é que o CBD tende a reduzir sintomas comportamentais sem provocar sedação intensa.
Segundo o psiquiatra Wilson Lessa Junior, isso favorece a participação das crianças em terapias multidisciplinares, consideradas fundamentais para o desenvolvimento de pessoas dentro do espectro autista.
“A criança precisa estar desperta para aproveitar terapias ocupacionais, sessões com psicólogos e fonoaudiólogos. O canabidiol ajuda a diminuir comportamentos agressivos sem comprometer esse processo”, explica.
Fonte: Agência Brasil

